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El Sabadin De Las Taquaras

(Filogônio Barbosa)

Aspargismênio de Tal, foi outro que, não se sabe como, aparecera certo dia na freguesia de Taquaras Verdes e por ali mesmo se acomodara às conveniências de um bom passadio, graças, talvez, à sua bem esculpida cara-de-pau. Isso porque, desde o início se apresentara como toureiro hespanhol em férias, ou melhor, “El Sabadin”, como era conhecido ao longo da Península Ibérica, ou seja, Espanhas e Bahias como dizia ele. E foi com um castelhano bastante inovado que, Aspargismênio, além de bandarilhar o coração da menina Queronéia, filha do vereador Firmino Borges, fizera com que a ingênua criatura se influenciasse tanto pelo idioma de Cervantes ao ponto de ser levada a uma benzedeira a fim de curar-se do “Mal das Espanhas.”

Firmino Borges não dava “olés” a esse namoro, mas a sua condição de político também não lhe permitia que tomasse uma medida drástica em relação ao caso, isso porque, a massa votante de Taquaras Verdes já havia sido contagiada pelo guapo “Sabadin”.

A prudência, portanto, aconselhava-o a que esperasse pelo tempo: mais cedo ou mais tarde aquele Manolo de beira de estradas baixaria em outras arenas. Mas estava escrito que, realmente, seria ali mesmo em Taquaras a primeira exibição do mal-aventurado Aspargismênio; pois não demorou muito e, insuflado por malfadados ventos, após penosa cabotagem, ancorou num terreno baldio de Taquaras Verdes o “CIRCO OITAVA MARAVILHA”, que aliás, de maravilhas não tinha nada a não ser um calango ensinado, uma arara do Amazonas, duas zebras artificiais e um macaco poliglota chamado Remigio compondo a fauna circense.

Diante de tão insignificantes atrações, Firmino Borges, o vereador, resolvera propiciar ao seu eleitorado um espetáculo mais digno: uma tourada estrangeira no picadeiro do circo. Além do que, pensava ele, ─ melhor oportunidade não poderia haver para se concluir de fato, a que motivos se prendia a permanência de Aspargismênio em Taquaras; caso fosse comprovada a veracidade tauromárquica, não perderia de todo a sua promoção, pois aproveitaria o momento para consolidar a simpatia dos seus eleitores, obsequiando-lhes com um festivo churrasco de carne fresca de rês abatida na hora pelas mãos do temerário “Sabadin”.

Acertadas as bases com o dono do circo, providenciou-se o mais depressa possível uma arena, enquanto o material para a “corrida”, à escolha do próprio Firmino, foi requisitado à Fazendas das Sete Tronqueiras, de onde veio escoltado por corajosos vaqueiros.

Ao conscientizar-se da incômoda promoção, Aspargismênio sentiu a terra abrir-se aos seus pés e tentou esquivar-se, dizendo que se achava impossibilitado no momento, por não haver trazido a sua indumentária de trabalho. Firmino não se deu por vencido. Encaminhando-se com ele à Casa dos Panos, pediu ao turco Bichara que cortasse uns metros de fazenda bem vermelha e embrulhasse uns punhados de lantejoulas, após o que, mandou que a sua filha, Queronéia, confeccionasse, com urgência, as roupagens do toureiro, pois o espetáculo estava marcado para dentro de algumas horas.

Com efeito, passado algum tempo, turbulenta multidão sacudiu os espeques da “Oitava Maravilha” quando o dono do circo, subindo na cerca de arame-farpado que circundava a “arena” ao lado de Aspargismênio, estufou o peito e anunciou com pomposa eloqüência:

─ Senorres e senorras! É com justo “orgujo” que la “Oitava Maravilea” apresenta a este hospitaleiro povo o “marror” torero del mundo: El sabadin de Lãs Taquaras! E abrindo uma porteira, deixou que uma vaca desembestada invadisse precipitadamente a “arena.”

Aspargismênio, petrificado, empoleirado sobre a cerca vacilou ante o animal que, ao vê-lo, pôs-se a lixar os cascos no pó-de-serra do picadeiro, enquanto a multidão frenetizava:

─ El Sabadin! El Sabadin!

Um gaiato que se achava nas proximidades, catucou-o com a ponta do guarda-chuva e, ele que era portador de cócegas crônicas, se viu frente a frente com a vaca, no meio da “arena”. O ruminante, ao deparar com tantos pinduricalhos, pôs-se a analisá-lo, prudentemente, antes de tomar uma iniciativa. Houve, por um momento, um silêncio tumular. Foi quando Aspargismênio, enchendo-se de coragem, começou a instigar o animal acenando-lhe a distância com a capa vermelha e sussurrando com voz trêmula:

Toro! Venga! Aqui, toro! Venga...

A vaca, que não entendia “castelhano” e também não era daltônica, resolveu justificar a sua aversão pelo vermelho: Um foguete de chifres foi disparado contra Aspargismênio, que, por um golpe de sorte, embaraçou-se na capa, caindo, precisamente no momento em que a vaca, passando por cima dele, calculou que o tivesse atravessado.

Num salto acrobático, Aspargismênio agarrou-se a uma ponta de estaca, tentando saltar a cerca quando uma violenta cabeçada, um pouco abaixo das suas pernas, levou pelos ares um feixe de arame-farpado. Por feliz coincidência, Aspargismênio caiu escanchado sobre o pescoço do animal, grudando-lhe nos cornos com firmeza. Foi uma balbúrdia indescritível. Ao generalizar-se a confusão, a montaria bovina se misturou com os espectadores, chegando ao ponto de ninguém mais saber quem era ninguém e muito menos quem era a vaca. Tamanha foi a avacalhação, que, quando alguém pisou no rabo do Remigio, o macaco poliglota, que até então se mantivera calado, o bicho se enfezou e virou nazista: Trepou no mastro do circo e fez um violento pronunciamento em alemão contra o vereador Firmino Borges, promotor daquela desastrosa demagogia.

Indo a pique a “Oitava Maravilha”, não houve, evidentemente, a decantada tourada como também foi adiado o almejado churrasco; mas quase toda a população de Taquaras Verdes ainda conseguiu presenciar um inédito final de espetáculo:

“El Sabadin”, o maior toureiro del mundo, acabava de desaparecer numa curva da estrada, pilotando uma vaca a mil quilômetros por hora.

Lamentavelmente, Emerson Fittipaldi havia sido ultrapassado.

Extraido do Jornal O Colatinense nº 879 de 28/09/72